Um Projeto de Lei denominado como PL 346/19 que tramita na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp), prevê que o “sexo biológico seja o único critério para que atletas possam atuar profissionalmente no estado”. Em outras palavras, o projeto veta a participação de atletas trans em jogos de times profissionais em São Paulo.

O PL que corre desde abril do ano passado já esteve em pauta em três sessões e em nenhuma delas houve quórum suficiente para a votação. O autor do projeto, o deputado Altair de Morais (Republicanos), acredita que homens e mulheres têm aparências físicas e anatômicas diferentes, sendo que homem seja mais resistente e forte, o que supostamente daria proveito a uma atleta mulher trans. “O projeto trata de uma questão de justiça, especialmente, no que se refere à garantia dos direitos das mulheres que demoraram anos para conquistar um espaço no universo esportivo”, afirmou o deputado em entrevista a revista VEJA.

O projeto paulista afeta diretamente a atleta Tifanny Abreu, que atua pelo time do SESI/Bauru. Em entrevista ao site GLOBOESPORTE.COM, Tifanny disse que o projeto é transfóbico e que é voltado apenas para ela. “Porque quando o deputado fala de proteção das mulheres e retirar as mulheres trans depois de tanto trabalho, de tantos estudos feitos pelo COI, que abriu espaço para nós, ele está tirando da gente direitos garantidos. É triste porque ele fala em proteção, mas ele ta excluindo apenas eu, apenas uma mulher trans do esporte”.

Esporte pela Democracia

Um grupo de atletas, ex-atletas e profissionais ligados ao esporte criaram o movimento “Esporte pela Democracia”, que tem por objetivo ser um grupo “antirracista, a favor da democracia, contra atos inconstitucionais, o preconceito, a homofobia, o feminicídio e a favor dos povos indígenas”.

Esse movimento publicou uma nota em repúdio a PL que tramita na Alesp contra jogadores trans participarem de jogos oficiais no Estado de São Paulo. “O projeto, carregado de transfobia, ignora os estudos realizados pelo COI e por outras entidades ligadas ao esporte, que mostram que pessoas trans não levam vantagem na prática esportiva. Também ignora que são realizados testes e exames regulares para que pessoas sejam autorizadas a competir em nível de igualdade”.

O movimento ainda salienta que a participação ou não de pessoas trans no esporte deve ser baseada em conhecimento cientifico, como ocorre atualmente e não em leis sem embasamento. “Além do claro teor desumanizador presente no projeto, ainda existe o impedimento legal. Quem legisla sobre o esporte são os órgãos esportivos, não as assembleias estaduais”.

Para conferir a íntegra do movimento e também assinar, clique aqui.

Especialistas

O PL é controverso já que autoridades entendem que não há vantagem de atletas trans sobre cisgêneros. O estrógeno aumenta as reservas de gordura e assim levam a uma perda de velocidade, força e resistência, todos os elementos importantes de um atleta, o que poderia demonstrar uma justa competição entre os jogadores.

“Quando os níveis do hormônio masculino se aproximam do esperado para a transição, a paciente percebe uma diminuição na massa muscular, densidade óssea e na proporção de células vermelhas que carregam o oxigênio no corpo”, explicou a pesquisadora americana Joanna Harper.

O próprio Comitê Olímpico Internacional (COI) leva em consideração esse entendimento dos cientistas e não proíbe a participação de atletas transgêneros. Prevê apenas que um tratamento hormonal de um ano reduza o nível de testosterona, o hormônio masculino, para abaixo de 10 nanomoles por litro de sangue.

Espaços esportivos devem ser ambientes de interação e inclusão social, além de ser um lugar de luta contra o preconceito. O processo de transição acaba por muitas vezes ser complicado, causando modificações no corpo, influenciando na vida diária. Por isso, a atividade física é um poderoso artifício pra reinserção da pessoa trans.

Mesmo assim, vemos poucos transexuais em esportes porque a comunidade acaba por excluí-los. Por esse motivo é extremamente importante que as práticas esportivas abram espaço para todos os gêneros e assim portas para outras áreas da vida social.

Se inspire

O que existe de concreto é que há a urgência de mais pesquisas cientificas. Enquanto isso, há permissões e ressalvas quanto à participação de trans. Por isso separamos alguns casos que podem servir de inspiração para quebrar barreiras do preconceito e ajudar a dar o primeiro passo para quem quer entrar em algum esporte sem medo.

  • Laurel Hubbard – levantadora de peso da Nova Zelândia. Foi autorizada a participar dos jogos asiáticos;
  • Fallon Fox – é a primeira transexual da história do MMA;
  • Cece Telfer – a primeira velocista trans a competir no atletismo universitário. Aos 21 anos, ela venceu uma provade 400m com barreiras na divisão II do campeonato universitário dos Estados Unidos;
  • Chris Mosier – atleta de duathlon e triathlon. Começou sua transição em 2010 e em 2015 ganhou uma vaga na equipe masculina de duatlo de sprint da Equipe dos EUA no Campeonato Mundial de 2016;
  • Mack Beggs – lutador de wrestling e começou a sua transição em 2015.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui