Como diria Norberto Bobbio:

“Somos aquilo que pensamos, amamos, realizamos e lembramos”

Relações familiares são muito particulares, mas os elos entre avós e netos parece que tem algo a mais, uma ternura e um carinho especial.

Por isso, hoje vamos falar sobre relações intergeracionais. Seus obstáculos, e como esses relacionamentos são importantes para manter nossa ancestralidade viva.

Nossa cultura, costumes e formas de agir estão diretamente ligados a época e local que vivemos. O que pode gerar grandes conflitos, visto que os costumes vão mudando na velocidade da luz. Também é muito importante para enxergarmos que somos pessoas únicas, respeitar e aprender com as particularidades dos outros.

Você já pode ter aprendido coisas muito diferentes com seus avós, receitas especiais que foram passadas de geração em geração, algum remédio caseiro que cura tudo, rituais ou superstições. Também pode ter vivido conflitos por eles não acharem apropriadas as roupas que usamos hoje, ou as relações que vivemos.

Independentemente dos conflitos, a relação entre avós e netos podem e devem ser sempre baseadas em respeito ao tempo de cada um, e trocas benéficas de conhecimento.

Os Avós mantêm nossa história viva, e os netos mantêm os avôs atualizados.

A troca de conhecimentos é muito valiosa dentro da nossa família. Enquanto os avós mantêm heranças culturais vivas contando e ensinando sobre os saberes ancestrais, os netos contribuem mantendo os avós atualizados.

Com a tecnologia, pessoas idosas estão sendo cada vez mais negligenciadas na sociedade. Elas têm dificuldade de acompanhar os avanços tecnológicos e isso faz com que eles não se sintam mais inseridos na sociedade. Logo, os netos, que nasceram e vem crescendo junto com o meio digital, são o caminho para manter os avós atualizados.

Enquanto isso, quando uma avó passa o conhecimento para sua filha que passa para sua neta, patrimônios e rituais são mantidos vivos, e caracterizam um povo ou comunidade. Com o conhecimento e repetição dos rituais, cria-se a sensação de pertencimento.

Cada família tem sua forma de criar, comemorar, comer e viver, reforçando nossa individualidade e a diversidade entre várias comunidades. Esses costumes e saberes ancestrais tem que ser passados a frente, para que nossas histórias sigam vivas, a gente saiba de onde viemos, e para que possamos agradecer aos nossos ancestrais por tudo que fizeram para que tivéssemos todas as oportunidades que temos hoje.

A partir dessa reflexão, trouxemos uma história real.

A história da Mayra Clara, cantora que foi criada pela avó materna, a Dôra do Forró. Sua avó nem sempre aceitou sua orientação sexual, mas com respeito, elas superaram esse obstáculo e hoje se apoiam e cantam juntas.

Segue um texto de autoria de Mayra sobre a relação com sua Avó:

É muito difícil viver em uma sociedade que não respeita a liberdade e as possibilidades do amor, bem como as suas diversas expressões. E se torna ainda mais difícil quando não podemos contar com o apoio da nossa própria família.

Hoje, posso dizer que tenho o conforto desse apoio, mas, nem sempre foi assim. Nem sempre minha família, em especial a minha avó materna, apoiou que eu me relacionasse (homossexualmente) com mulheres.

Passei por muitos embates com a minha avó, precisei de muita coragem e teimosia para garantir o meu direito de ser quem eu sou e de amar quem eu quiser amar.

Não foi nada fácil ter embates com a mulher mais importante da minha vida, a pessoa que me adotou e criou logo após a morte de minha mãe quando eu ainda era uma criança. Não foi nada fácil contar sobre a minha bissexualidade. Lembro que quando ela descobriu agiu mal, disse que eu ia sofrer muito e que tinha medo de que eu não fosse ser feliz.

Foram diversas as vezes que discutimos e sempre era muito doloroso para ambas as partes. De toda forma, eu não permitia que os preconceitos dela interferissem nos meus relacionamentos e segui amando livremente, sendo sincera com ela sobre todas as vezes que eu estivesse namorando, sendo com homem ou com mulher.

Foi muito bom perceber que com o passar do tempo, depois de alguns diálogos e convivências, minha avó aprendeu a ter respeito pela minha liberdade de amar e também de querer bem a quem me ama.

Portanto, acredito que nada melhor do que a vivência, o respeito e o reconhecimento de que as pessoas, independentemente de gênero, de orientação sexual, merecem ser, existir e serem amadas, principalmente, por suas famílias, base tão fundamental e fortalecedora (inclusive da imunidade) para seguir vivas e fortes em uma sociedade que ainda se mostra tão difícil e violenta para nós, pessoas LGBT’s.

Pois que sigamos sempre na teimosia do amor, na teimosia do amar, até que todes nós sejamos livres, orgulhosamente, livres!”

E viva o respeito, o amor, o apoio, as memórias e nossos avós!

1 COMENTÁRIO

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui