A fase escolar é complexa e cheia de incertezas, mas para alguns jovens é uma experiência ainda mais delicada. Apesar do aumento expressivo dessa discussão em diferentes contextos alunos LGBT ainda sofrem discriminação dos colegas e muitas vezes do corpo docente: quando a escola escolhe não abordar o tema e opta pelo silêncio que leva à LGBTfobia. E, para muitas instituições o problema são esses jovens e não as violências que eles sofrem.

O preconceito e a estigmatização dificultam o aprendizado e geram insegurança. A escola tem importante papel no processo de conscientização e formação do indivíduo e é o espaço mais acessível para a promoção da cidadania. É importante que tenha pluralidade também entre seus profissionais. “Ter calma e transformar a sala de aula em um espaço seguro para o diálogo, sempre se mostrando disposto a ouvir com humildade as colocações do aluno” diz Vinícius de 22 anos, homem gay e professor de Português e Inglês para o Ensino Infantil e Fundamental.

“Sempre fui um profissional que buscou auxiliar na formação crítica dos alunos e, talvez, isso tenha influenciado um pouco na relação com a instituição e também com o corpo docente.” Vinícius costuma abordar temáticas LGBT em sala de aula, buscando sempre estar em sintonia com o contexto dos alunos e dos conteúdos propostos pelo currículo escolar. Utiliza o espaço da sala de aula para construir uma discussão oral acerca do tema. “Para assim, conduzi-los, através da lógica argumentativa, ao caminho do respeito pela pluralidade e da luta pela igualdade. É importante nos lembrarmos que gênero e sexualidade são temas considerados culturalmente de cunho familiar, então, é necessário ter paciência e demonstrar a importância do debate para os estudantes em sua formação como um indivíduo crítico”.

Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil 2016, 27% dos entrevistados afirmaram ter sofrido agressão na escola e 73% foram alvos de xingamento em razão de sua orientação sexual. Em relação à identidade ou expressão de gênero, 25% foram agredidos fisicamente dentro da escola e 68%, verbalmente. O grande número de evasão escolar entre LGBT é uma consequência do ambiente escolar que despreza esse tema e que demonstra despreparo para abraçar essas pessoas. A rejeição familiar, que muitos também sofrem, os colocam em uma situação fragilizada que dificulta ainda mais o relacionamento escolar. Vinícius diz que durante sua adolescência, por muito tempo, negou esse ambiente e acreditou piamente que não era o seu lugar, no entanto, teve sorte de cruzar com professores que despertaram-lhe um sentimento de pertencimento e acreditaram nele, incentivando-o a seguir o caminho da educação “Até hoje sou grato por esses profissionais que me acolheram e me inspiro neles para fazer a diferença também”.

A necessidade do corpo docente de atualizar seus conhecimentos e suas práticas educacionais também é uma política que precisa ser implantada. “É importante ter em mente que ser professor é um ciclo constante de pesquisa, elaboração de conteúdo e aprendizado. Diferente da antiga noção perpetuada de que o professor é um mestre que é vetor de conhecimentos estáticos e canônicos, a profissão exige que o conhecimento seja mais abrangente, volátil e democrático”. Mesmo com muitas divergências teóricas e ideológicas dentro da área educacional, Vinícius acredita que os profissionais da educação estão dispostos a mudar porquê além de ser uma conduta exigida pela área é, atualmente, também exigida pelos próprios alunos que sempre trazem informações novas e questões embasadas em suas vivências: cabe ao professor permitir-se aprender com eles.

Diante desse necessário, mesmo que muito bem intencionado, é muito difícil para um professor mudar sozinho as práticas LGBTfóbicas dentro desse espaço sem o assentimento da instituição. Por isso o corpo docente precisa implantar medidas para combater o conservadorismo nesses espaços, mas elas não devem acabar no muro das escolas “O fortalecimento da relação entre a comunidade escolar, os pais e a comunidade que circunda a escola é muito importante. Temas como gênero, sexualidade e etnia devem ser debatidos com a comunidade e não restringidos à sala de aula. Palestras, atividades complementares e eventos devem ser abertos a todos interessados. A escola deve ser um ambiente democrático que promova o conhecimento para quem quer que seja, pois, acima de tudo, a educação deve somar e não excluir”.

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